Contos & Crônicas

Mudei

Publicado em Outros por Francine Ramos em janeiro 15, 2010

Agora eu escrevo somente aqui: acontadora.wordpress.com

Até la! ;)

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A velha mansão (2ª parte)

Publicado em Contos por Francine Ramos em outubro 13, 2009

E se devemos nomear um representante daquela casa, porque em toda família tem um nome que mais se destaca, confesso que tenho dúvidas sobre o nome mais forte da mansão. Talvez Joaquim ou Carmem. Ele porque quando nasceu provocou uma comoção misturada com respeito por todos da casa. Ela porque aguentou bravamente todas as dores do parto naquela terrível noite de chuva e frio.

Joaquim nasceu numa noite de agosto em 1978, nessa época Senhora Carmem não era viúva, Dona Marisa ainda era capaz de sorrir e a mansão tinha recebido sua última pintura externa, um verde-água que combinava sutilmente com os tecidos de algodão pendurados no quintal, com os galhos secos das macieiras do jardim e incrivelmente fazia uma bela composição com o vai-e-vem de Dona Marisa pelas laterais da casa. Mas nessa noite, por motivos tão difíceis de explicar, porém tão fáceis de sentir, como quando se olha o sol do meio-dia e esforça-se naturalmente para não querer mais vê-lo, o verde-água da mansão perdeu seu tom alegre e seu reflexo do sol, ganhou manchas da chuva que torceu as calhas e derrubou alguns galhos da macieira. Dia estranho.

E Senhora Carmem chorava como choram as mulheres numa noite de parto. Sabe se lá porque foi decidido que Joaquim nasceria na casa com a ajuda de Dona Marisa. Apenas com a ajuda de Dona Marisa. E um parto normal que levaria em média algumas horas estendeu-se por toda madrugada intercalados por gritos e sussuros da Senhora Carmem, pedidos de calmaria da Dona Marisa e doses de wisky do Senhor Afonso que perambulava pela sala principal vestindo seu casaco de veludo azul.

O Senhor Afonso morreu anos depois devido ao seu péssimo hábito de beber. O cigarro, causador das brigas entre ele e sua esposa, não foi o principal fator da sua morte, mas sim o wisky, que querendo ele ou não, fazia parte da sua vida de empresário. Quantas garrafas raras ganhou de seus amigos e antes mesmo de chegar à mansão esvaziava-as junto a alguma mulher de bordel.

Lá pelas quatro horas da madrugada ouve o choro da criança, Senhor Afonso encontrava-se deitado na sua poltrona, cochilando, segurando um copo de wisky vazio e um cigarro apagado pelo vento que entrou pela janela. O bebe chorou tão pouquinho que ele não acordou até que o primeiro raio de sol tocou o seu rosto. De súbito ficou em pé, subiu rapidamente as escadas de madeira até a parte superior, caminhou rapidamente pelo corredor com tapetes persas até o quarto principal: lá estava Senhora Carmem dormindo com o pequeno Joaquim em seus braços.

Antes de morrer ele disse ao médico que o momento mais feliz da sua vida foi quando viu sua mulher, que tanto amava, segurando o seu filho Joaquim naquela manhã gelada com pequenos raios de sol invadindo o quarto. Doutor, naquela noite houve um dos temporais mais feios da região e parece que meu filho nasceu no mesmo instante que o sol teve forças para vencer as nuvens negras, isso me fez compreender muitas coisas a respeito da minha família, meus pais, meus avós e principalmente o horror que mora naquela mansão.

(continua…)

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A velha mansão (1ª parte)

Publicado em Contos por Francine Ramos em outubro 10, 2009

Uma folha seca no ar conforme o vento mandava. Até que tocou suavemente a janela daquela mansão. Ao pousar, ao tocar delicadamente o vidro de forma imperceptível, coincidentemente o rapaz que dormia do outro lado da janela abriu os olhos.

E quando ele abriu os olhos muitas outras coisas aconteceram simultaneamente sem ninguém notar. Dona Marisa, a cozinheira, colocou a última colher de açúcar no café, o cachorro Sparker lambeu a grama molhada do jardim e Senhora Carmem, sua mãe, terminou o laço do seu vestido azul. Tudo isso no mesmo segundo da folha tocar a janela e no mesmo instante de Joaquim abrir os seus olhos.

E preciso dizer também sobre as nuvens, que também mudavam a cada instante fazendo parte de segundos que ninguém notava. Repito: Joaquim abriu os olhos, a folha seca tocou a janela, Dona Marisa acrescentou a última colher de açúcar no café, Sparker lambeu a grama molhada, Senhora Carmem completou o laço do seu vestido azul e a nuvem com desenho de dragão se desfez tornando-se apenas nuvem.

Joaquim calçou seus chinelos. Ele era um homem alto, magro, de cabelo raso e olhos claros. Um certo charme surgia em seu rosto quando ele sorria e um certo desdém constante fazia parte do seu rosto comum. Parecia que ele tomava o café de Dona Marisa com a mesma expressão de alguém que aguarda calmamente a fila do banco, uma expressão quase nada, nula, sem vida. Ele tinha aproximadamente trinta anos.

O cachorro Sparker era um vira lata branco com manchas marrom, e presente da última namorada de Joaquim. Ele gostava de comer as maças que caiam da árvore que ficava no quintal da mansão e também adorava correr atrás do carro da Senhora Carmem nas raras vezes que ela resolvia sair daquela casa gelada.

Senhora Carmem era uma viúva e não por isso ela tinha um ar de que a vida acabou, muito pelo contrário, ela possuía uma beleza de tentativas. Ela tentava ser alegre e tentava soltar um riso espontâneo, tão raro nas mulheres de cinqüenta anos. Isso, a princípio, pode ser considerado algo deprimente, por outro lado era bonito ver que ela não sentia medo de mostrar suas rugas enquanto sorria, mesmo forçadamente. Ao contrário de Dona Marisa, a empregada, que com seus quarenta anos mais parecia uma velha vivendo num asilo – descuidada e sem amor. E não que isso fosse a verdadeira situação que lhe era concedida pelos moradores da mansão, mas sim ela própria criou esse mar de infelicidade e descuido com sua própria vida. Ela era um mistério.

A escada que terminava na sala principal era de madeira escura e quase diariamente alguém daquela casa escorregava em seus degraus devido à mania de encerar de Dona Marisa, mas Senhora Carmem preferia não reclamar, ela não queria perder o leve fio de calmaria que ainda existia naquela casa. Uma calma tão subjetiva, tão superficial e tão presa àquelas paredes amarelas. Tudo falso. Porque, no fundo, toda noite, todos da casa sabiam que situações incomuns aconteciam por lá.

(continua…)

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O tempo

Publicado em Outros por Francine Ramos em setembro 27, 2009

Pablo-Picasso-Tete-d-une-femme-lisant-83721

Logo pela manhã, assim que derrubei um pouco de cappuccino sobre o guardanapo velho lembrei daquilo que combinamos. Quando o tempo passar, e se passar o suficiente, e se não nos encontrarmos novamente, vamos fazer de conta que só faz um ano.

Mas um ano é muito tempo, eu falei. Mas você, sorrindo, explicou que não. Um ano passa tão rápido quanto passou o nosso último beijo. Calei-me.

Quando me mudei ganhei de um amigo um calendário desses que servem para vários anos, mas não o pendurei em nenhum canto da casa. E das vezes que ele veio me visitar eu não soube explicar porque não pendurei. Ainda bem que ele é esquecido.

Eu não pendurei porque o calendário me fará lembrar constantemente da nossa idéia boba de que só faz um ano, quanto na verdade faz bem mais. Quantos anos mesmo?

Eu não pendurei porque o calendário me fará lembrar constantemente de você, repito. E eu não quero mais as flores que você me deu num dia comum, eu não quero nossa dança na chuva, no sol, na praia, no luar. Porque querer me faz lembrar que o tempo passa tão rápido ao ponto de eu ter certeza, e me conformar, que amar você deixou de ser uma linha tênue do tempo, é como uma forte ventania que, por mais que vá embora por algum tempo (um ano talvez) volta mais forte, como um furacão.

Inspiração: Meu coração está de Luto – Zeca Baleiro

Imagem: Pablo Picasso - Tete d’une femme lisant

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Opacidades da vida

Publicado em Contos, Vou de Coletivo por Francine Ramos em setembro 9, 2009

Salvador Dalí Galatéa de las Esferas 1952

Lá fora começava um temporal, desses capazes de fazer o dia virar noite. Tudo negro, tudo pólvora.

A janela e suas cortinas caramelo balançavam no ritmo do vento, não podia ser diferente. Estranho era aquele ventiladorzinho no canto daquela sala velha. Todos os móveis velhos, o chão opaco aclamava por brilho. Que brilho? Casa opaca, de pessoas opacas.

E Helena estava no outro canto da sala, sentada no chão porque sua poltrona preferida foi para a manutenção. Ela sentada no chão, as mãos cruzadas junto ao seu corpo esguio vestindo sua camisola de cetim, o único luxo daquela casa era sua camisola de cetim (velha).

O vento uivava mais, Helena quase sufocava por querer trazer seus braços e mãos e pernas junto ao tronco, não era uma imagem ruim, poderia ser uma bela foto: a sala velha, vazia, a cortina balançando e uma moça opaca no canto da sala tentando se esconder do mundo. (mas ali ela estava tão exposta). Tudo era tão opaco.

Ela estava ali porque horas atrás seu vazo de cristal opaco havia quebrado, num descuido dela, num descuido dele tudo se perdeu.

Seu marido chegou em casa um pouco mais cedo e Helena, pobre Helena, não teve tempo de preparar o jantar. O marido, um comum bancário cheio de manias irritantes não gostava de fugir as regras. Helena até tentou insinuar que, ele chegando mais cedo, poderiam aproveitar mais aquela noite de fortes ventanias. Mas ele não entendeu.

E enquanto ela dizia as palavras pólvoras, segurava o vazo de cristal opaco e também virava seu rosto para o rosto de Carlos. Mas os olhos de Carlos não entendiam ou fingiam não entender, não sei. Homem burro, quantas vezes ela pensou assim.

Um raio. Um trovão. O vazo opaco no chão. Um segundo de silêncio. Carlos, achando tudo aquilo tão patético e antes de perceber as nuvens negras se formando, pegou as chaves do carro e saiu. Helena, boba, chorou. E agora ela se encontra assim: uma moça opaca no canto da sala tentando se esconder do mundo, mas ali ela estava tão exposta. Tudo era tão opaco.

Antes de pegar no sono aconteceu o que acontece com todas as pessoas antes de dormir – uma seqüência de pensamentos inacabados e interrompidos por outros e mais outros, até que o sono vem – seu último pensamento era dormir ali e amanhecer em outro lugar. Quanta tolice.

(Texto inspirado no tema ‘Dormir aqui e amanhecer em outro lugar’, do site ‘Vou de Coletivo‘)

(Imagem: Salvador Dalí Galatéa de las Esferas 1952)

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Hipnóticos Olhos

Publicado em Contos por Francine Ramos em setembro 5, 2009

Her Eye by Vickie fisher

A Letícia tinha manias estranhas. Enquanto alguém lhe contava uma história ela não conseguia piscar os olhos. Ela sentia vergonha, porque, de repente era como se ela estivesse a olhar um sorvete gelado num dia de verão. Ficava lá estagnada com cara de quero mais. Os olhos iam abrindo cada vez mais. Ela não conseguia controlar.

Ela foi ao médico. Doutor o que eu faço? Meus olhos secam, minha garganta também, fico tão envolvida! Meus ombros chegam a doer de tensão pelas histórias que me contam, não consigo piscar meus olhos! Vou te passar um colírio, pingue antes de alguém começar a contar alguma história. Ela sentiu um alívio. Problema resolvido. Não.

Porque quando Pedro foi lhe pedir em casamento Letícia disse que precisava de um momento antes dele iniciar o que tinha de tão importante a dizer. Esperta como ela só abriu a bolsa e pingou 3 gotas em cada olho.

Escorreu lágrimas de mentira. Pedro achou um absurdo. Bem que me disseram que você é uma mulher insensível, não presta atenção nas pessoas, não olha nos olhos! Ela balbuciou alguma coisa. Eu não quero casar com uma mulher que pinga colírio nos olhos pra fingir emoção. Eu não quero. Jogou a aliança no mar.

Letícia, de raiva, jogou o colírio no mar. E se tornou uma dessas pessoas que ninguém confia, tudo por que. Tudo porque outros olhos e outras histórias a hipnotizam.

(Imagem: Her Eye, Vickie Fisher)

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Dia de chuva

Publicado em Crônicas por Francine Ramos em setembro 1, 2009

Pink Umbrellas Mark King

Ela sentia o vento gelado tocar sua pele, estava tão difícil permanecer naquela rua movimentada sem ninguém para conversar. Seus olhos mostravam o cansaço, suas mãos seguravam fortemente o guarda-chuva sabe se lá por que. Ela sentia um vazio.

O carro dobrou a esquina no mesmo instante que o sinal fechou. Houve aquela freada brusca, barulho e cheiro de pneu. Sofia, segurando seu guarda-chuva, olhou assustada. E, por algum motivo que não é possível explicar, aliviou-se no segundo seguinte. A vida é um alívio constante depois dos sustos. Quantas vezes ela ficou preocupada demais com o que aconteceria no dia seguinte, porém quando o dia chegou nada demais aconteceu. C’est la vie!

O sinal abriu e aquele carro que dobrou a esquina continuou acelerando muito, chamando a atenção de todos. Sofia, claro, ficou curiosa para saber quem seria o motorista desenfreado. Quem seria?

Olhou para o relógio. Sua bolsa e sacolas atrapalhavam um pouco, seu cabelo vermelho caia levemente sobre seus olhos negros. Resolveu ascender um cigarro. Mas a bolsa, as sacolas e o guarda-chuva faziam do seu desejo simples (pegar o cigarro, levar a boca e apertar o isqueiro) algo muito difícil.

E ajeita as sacolas com uma das mãos, segura tudo com a mesma mão: sacolas, bolsa e guarda-chuva. Bendito cigarro sendo levado à boca.

E quando o isqueiro fez aquele barulhinho típico do fogo o carro em alta velocidade chegou, espalhando água das poças por todos os lados. Adeus cigarro e um minuto de calmaria.

Tudo molhou, tudo molhou! Sofia agora era uma mulher raivosa, com seu cabelo ruivo molhado e grudado em seu rosto. Bolsas, sacolas e guarda-chuva ao chão. A chuva resolveu aumentar. Seus pés, dentro do sapato molhado, sentiam grãos de areia. Estava tudo molhado, tudo molhado!

As lágrimas escorriam, ninguém percebia. A chuva caia cada vez mais forte (as sacolas continuavam no chão). Ela sentia vergonha, ela sentia raiva, ela não queria olhar para os lados e ver alguém rindo dela (o mais provável era alguém na mesma situação) mas ela não queria olhar, não queria olhar!

O carro dobrou a outra esquina, podia-se ver o movimento da rua – pessoas indo e vindo, semáforos vermelhos e verdes, estava tudo sincronizado, como deveria ser. Mas Sofia chorava e chorava. Ultimamente a vida não estava sendo boa para ela.

(Imagem:  Pink Umbrellas – by Mark King)

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O dia do aniversário

Publicado em Crônicas por Francine Ramos em agosto 25, 2009

Woman and Flowers by Yenhuei Hsu

Ela só precisava dormir um pouco mais. O relógio insistia que ainda não era o dia do descanso, ela precisava trabalhar. Antes precisaria tomar um banho, arrumar seus cabelos, escovar os dentes, passar um blush para tirar aquela expressão tão pálida. Precisava também dos seus anéis – presentes especiais os quais ela não vivia sem. Não, ela não era fútil, mas mantinha algumas coisas penduradas em si como uma árvore de Natal, mas era uma árvore simples, pobrezinha, sem enfeites caros.

Era isso, exatamente isso: Priscila era uma mulher sem enfeites caros.

O relógio despertou mais uma vez, ela continua entrelaçada em seu lençol de seda, continuava com sua máscara nos olhos que evitava o clarão. (No fundo ela sabia que não era a clarão em si, era mais um apetrecho para fazê-la não sentir vontade de abrir os olhos, e, se assim fosse, teria mais um obstáculo a frente. Precisava dos seus braços, das suas mãos para soltar a máscara e, posteriormente, encarar o dia.)

Não só braços e mãos, também deveriam estar ali suas pernas, seus pés. Seu passo a passo rumo a mais um dia de trabalho. Quando o relógio vai parar de me atrapalhar?

O que a incomodava mesmo não era o fato de acordar todos os dias as seis da manhã e sim acordar com o relógio tocando “Better Sweet Symphony” todos os dias da semana. Todos os dias da semana, todos os dias da semana. (Ah, sim, ela já havia feito a tentativa de trocar a música, não adiantava, não adiantava.) Ela queria simplesmente acordar por opção, não obrigação.

Vamos você consegue, mas hoje ainda é terça-feira. O celular tocou, ela atendeu. ‘Feliz Aniversário’. Feliz aniversário? Feliz aniversário?

Ela calou-se por alguns segundos, que mais pareceu o tempo de uma sinfonia inteira. Hoje é meu aniversário. Sorrio, gargalhou baixinho. Hoje é meu aniversário. Obrigada. Quem será do outro lado da linha? Estou um pouco atrasada, obrigada por me avisar, eu tinha esquecido que hoje é meu aniversário!

A voz do outro lado pronunciou o que se pronuncia num dia de aniversário. Priscila não demonstrou muitas surpresas. Quem será? Isso não importa. Ela desligou o telefone educadamente, agradecendo as felicitações. E, de súbito, arrancou a máscara nos olhos. (O clarão do sol reluzia nas brancas paredes e tocava suavemente seu rosto.) Hoje vou sair para comprar as flores eu mesma.

(Imagem: Woman and Flowers, Yenhuei Hsu)

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A dois passos

Publicado em Crônicas por Francine Ramos em agosto 23, 2009

The Persistence of Memory, c.1931

Ela era uma linda garota com olhos de jabuticaba e sua mãe sempre dizia que ela iria ser grande. Mamãe, mas eu já sou a mais alta da turma. Espere e verá, minha filha. E foi então que ela ouviu a canção ‘estou a dois passos do paraíso’. E transbordou de tanta felicidade. Mamãe, eu já entendi o que é ser grande. Era estar a dois passos do paraíso. E não se preocupou mais.

Não se preocupou mais porque já sabia fazer continhas. Se só faltam mais dois passos e eu só tenho dez anos o paraíso está pertinho. E resolveu brincar mais de bonecas, resolveu conversar mais na escola e sorrir discretamente para os garotos bonitos. Chegou até a fugir de casa por um dia só pra ver como é que era. Ninguém entendia porque Clarinha era uma menina tão sorridente. Clarinha, porque você está com esse sorriso tão bonito hoje? Ela sorria mais ainda e não respondia, apenas pensava. Estou a dois passos do paraíso, seus bobos!

Mas Clarinha cresceu. Agora era a senhora Clara Cristina, uma mulher corajosa, diziam, mas só ela sabia que não era sempre assim. E, por coisas comuns da vida, ela se esqueceu da canção que a fez uma criança mais feliz.

Esqueceu porque não tinha tempo, porque o seu celular tocava demais, porque haviam contas a pagar, porque os filhos davam trabalho, porque o marido só pensava no futebol, porque sua pele já não era mais de seda, porque ela não tinha tempo de ler o seu livro preferido, tampouco comprar um sapato novo.

E não foi um esquecer para disfarçar sua frustração. Simplesmente esqueceu. Esqueceu mesmo. Como um dia esqueceu a boneca no jardim da escola e nunca mais encontrou.

Nunca mais encontrou o paraíso.

Imagem: The Persistence of Memory, c.1931, Salvador Dalí

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Mulheres modernas

Publicado em Crônicas por Francine Ramos em agosto 17, 2009

Claude Monet - The River, Bennecourt

Ela sentia um peso a mais e não era um peso bom de quando se sente as mãos cansadas por segurar muitas sacolas de shopping. Era um peso nas costas, um olhar cansado, sem brilho. Faltava alguma coisa. O que?

Não que ela não procurava, não que ela não soubesse, era apenas aquela preguiça matinal por todo o dia. O sol brilhava e ela, sim! Via beleza nisso, mas não queria mais estar lá.

Não que ela não sorria, não que ela não soubesse contar uma boa piada. Ah, sim, como ela sabia. Mas tudo era apenas um precisar calar-se.

Ela calou profundamente.

Quando o telefone tocava ela ainda o atendia, ainda era capaz de ouvir. Mas e ela? O que a fez assim? Ela não era vazia, sabia conversar sobre política e metafísica, sobre o feminismo e sobre astrologia. Um típico objeto do mundo moderno. Uma mulher tão bela e tão presa dentro de seus próprios desejos (sem sentido).

(Imagem: “The River, Bennecourt” – Claude Monet)


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Carta de amor

Publicado em Diversos, Outros, Vou de Coletivo por Francine Ramos em agosto 1, 2009

Quando você me perguntou se eu ainda estaria morando aqui no próximo ano achei graça. Logo você querendo planejar as coisas, não combina. Porém, isso pode ser muito você. Não há outro que goste mais de mudar. De dentro pra fora, sempre.

Hoje caminhei pela Rua dos Três Desejos, estava frio e faltou você me dizendo para não esquecer as luvas.

Meus dedos se sentiram mais confortáveis quando segurei a xícara de chá quente na cafeteria da Ruth. Ela continua a mesma, perguntou de você como perguntou na semana passada. Será que ela finge não saber que você viajou a 7 meses? Eu ainda vejo graça nas mesmas perguntas dela, talvez um dia eu canse e passe a tomar café naquela padaria da esquina. O cheiro do pão torrado pela manhã continua o mesmo, delicioso.

Suas correspondências continuam a chegar, fique tranqüilo, pois todas estão bem guardadas.

Agora você deve estar perguntando por que eu as guardo se você não vai voltar. Como você é previsível! Sei que agora você está sorrindo, deve estar também no décimo quarto cigarro do dia. Não vou escrever aqui o que acho sobre seu charmoso vício. Sem brigas, meu amor. E se eu as guardo é uma questão de educação, minha mãe sempre disse para eu não estragar a correspondência dos outros.

Cansei de escrever. Simplesmente não sei como terminar essa carta. O que mais falta dizer a você? Que ainda tem um resto de você em mim?

Vontade de rasgar essa carta, mas é o ultimo papel que me resta. Escrevo a carta da cafeteria da Ruth, ela já passou pela minha mesa várias vezes tentando adivinhar o que estou escrevendo, achei graça. Eu estou sorrindo agora.

Bem, acho que está bom. Termino essa carta sorrindo. Afinal um amor longe dói de qualquer jeito, o melhor é sorrir.

(Imagem: Vincent Van Gogh – Café Terrace by Night – 1888)

Post inspirado pelo blog ‘Vou de Coletivo’, tema: Carta de Amor

No outro blog também tem Carta de Amor, confira.

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O pássaro

Publicado em Crônicas por Francine Ramos em julho 28, 2009

matisse-amargem

O vento soprou, as folhas inclinaram um pouco, o passarinho alçou seu vôo e foi morar em outro lugar, sua casa caiu e as formigas começaram a fazer a festa. O sol estava se pondo no horizonte, sendo possível ver através das folhas os últimos raios de sol brilhando, quase apagando. E se realmente existe a noite, se a escuridão é mesmo o que sempre penso ser, acabo criando uma confusão: o que é realmente a vida? Uma noite iluminada ou um dia sem luz?

Dificilmente eu conseguirei ver as cores das folhas daqui alguns minutos. O sol está se pondo e a lua já pode ser vista acima de minha cabeça. A Lua é mais sincera que o sol, pois fica toda exibida, mostrando suas manchas, suas falhas. O sol, imponente e arrogante ofusca minha visão se tento compreendê-lo. É isso.

Enquanto escuto os sons dos talheres lá debaixo percebo que aqui em cima a vida está mais compreendida. Eu sei do sol e da lua. E lá embaixo? O que eles sabem? O passarinho foi embora porque perdeu o equilíbrio na folha, culpa do vento, aquele sopro. Mas foi, simplesmente, foi.

Escancarei a janela e sobrevivi ao vento, mas não o suportei. Minha pele começou a sentir seu gelo. Como está frio lá fora, coloque uma blusa. Mas eu não consigo sair daqui, o vento vem, quase me derruba, mas parece ser minha obrigação encará-lo e suportá-lo. Eu devo conseguir, uma forma de limpar as marcas na minha pele. Elas foram tão fundas que doem meus músculos, chegam no meu centro, minha alma.

Ah, eu queria ser um passarinho para me incomodar e simplesmente alçar vôo em outras moradas.

(Imagem: Henri-Emile-Benoit Matisse, 1907 – A margem)

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Explicações

Publicado em Crônicas, Diversos, Outros por Francine Ramos em julho 9, 2009

Eu não quero explicações, pode ser? Isso mesmo, não me diga do que você gosta ou não gosta, não me diga como você gosta de dormir. Não! Não preciso saber qual sua cor preferida e o nome do seu perfume, não quero nomear meu sentimento, não quero saber do seus traumas.  Não me diga, não me diga, não me diga nada. Assim é melhor.

Eu apenas preciso olhar nos seus olhos. Isso, fica assim, com esse meio sorriso, indecifrável. Não é melhor assim? Eu sei que é. Para! Sem intervenções com suas palavras, cuidado com elas, eu quero apenas o som da sua voz se for para o indecifrável. Eu lhe deixo recitar uma poesia pra mim.

Tudo bem, vou lhe dar apenas uma explicação sobre isso. É a única que terá, por isso a guarde muito bem, mergulhe nela e deixa que essa seja nossa única verdade.

Sabe o que é? Prefiro não entender. Essa é a única maneira que encontrei de preservar o meu amor perfeito.

Imagem: Van Gogh – Starry Night Over the Rhone

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A Casa Torta

Publicado em Crônicas por Francine Ramos em junho 27, 2009

Frequentemente alugávamos um filme. Ele escolhia, pois sempre considerou meu gosto para filmes um pouco duvidoso, tudo porque uma vez aluguei um daqueles que nada acontece.

Havia, então, uma sessão de cinema comum (para nós): sem pipoca, mas com coca-cola e cigarros.

Depois íamos para a varanda, sentávamos no chão de pernas cruzadas. Eu reclamava, mas também gostava de estar lá. A pequena paisagem ficava ofuscada pela grade da varanda, víamos tudo em pequenos quadradinhos.

A nossa frente tinha uma casa torta, era estranha e bela. E ele, naquela infinita vontade de falar e falar sobre o filme me deixava apenas como ouvinte. Eu ouvia pacientemente todas as suas impressões, seus comentários sarcásticos e suas risadas pequenas. Mas meus olhos estavam naquela casa torta.

As luzes sempre apagadas, as cores não bem definidas pela sombra das árvores. Vez ou outra uma luz ascendia, mas não tinha muito movimento. Eu ficava pensando, por que essa casa é torta, por que ela não está na mesma direção das outras? Por que ela fica mais ao fundo, mais diagonal? Por quê?

Ele continuava a falar, sem conhecimento profundo da causa, mas falava com maestria.  Vez ou outra tocava meus cabelos e brincava com o laço do meu vestido. O que eu mais gostava era sua forma prática de compreender tudo. Sem entrelinhas, sem metáforas.

E eu no meu momento introspectivo, achando que filmes não importam muito, aproveite a brecha de silêncio. Por que aquela casa é torta?

Ela não é torta. Nesta posição ela é a única que recebe o sol todas as manhãs.

Imagem: Claude Monet – Maisons d’Argenteuil

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Em casa

Publicado em Outros, Tertúlia Virtual por Francine Ramos em junho 15, 2009

espelhodocarronaestrada

Lembra quando viajamos para aquela cidadezinha do interior que, aparentemente não tinha nada, mas que nos trouxe tanta coisa?

Como de costume eu dirigia e você ficava responsável por controlar o som. E você sempre acertava as canções, perfeitamente. Cada curva, cada marcha, cada farol vindo em nossa direção ganhou uma música. Você, sem querer ou não, montou toda a trilha sonora das nossas vidas.

E quando entramos naquela casinha rodeada de plantas, e aquele cheiro suave de grama molhada invadindo tudo eu me senti tão em casa!

Estranho como um lugar estranho pode ser tão familiar. Qual foi a magia impregnada ali?

Foi fantástico acharmos aquela garrafa de vinho, mais fantástico seu jeito louco tentando encontrar um abridor. Eu já lhe disse que fica lindo andando para um lado e outro enquanto seus cachos balançam? É, meu amor.

E quando você ascendeu a lareira, e quando você me abraçou eu senti o cheiro do seu casaco tão familiar, suas mãos, que suavemente tocavam meu cabelo, me diziam que eu não precisa de mais nada.

Doces lembranças.

Eu nunca me senti tão em casa, pelo simples fato de estar enrolada a você.

TEMA INSPIRADO PELO BLOG  ‘TERTULIA VIRTUAL’: QUE LUGAR TE FAZ SENTIR EM CASA?

Seu nome ao vento

Publicado em Diversos por Francine Ramos em maio 9, 2009

Eu nunca tinha parado para contar o tempo. Pensei nessa questão quando mais uma vez o seu nome provocou um turbilhão. Não nos compreendemos desde sempre e tocar na nossa história, e soltar nossos erros ao vento causam sempre confusões.

Porque é preciso entender, compreender e nomear situações, lugares e desencontros? Histórias são sempre histórias. Você é apenas você. Eu apenas eu. O que mais importa?

Aquele seu casaco ainda continua aqui, talvez seja uma das poucas coisas que não consegui me desfazer, para que? Quando digo aqui é dentro de mim, de quando o seu casaco era meu melhor aconchego.

Agora sei do nosso tempo em números, mas se eu fechar os olhos tudo se passa como um único segundo.

Você estava como uma poeira num canto qualquer, mas o vento forte de ontem fez você estar em todos os lugares.

(Imagem: Kandinsky, On white II)

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Enquanto posso

Publicado em Crônicas, Diversos por Francine Ramos em abril 11, 2009

É ruim a primeira sensação ao acordar, depois começa a ficar bom. A princípio ainda estranho o novo quarto, quando estou de olhos fechados ainda imagino o quarto antigo. Aquele que acomodei todos os meus sonhos.

O que é o sonho? O que é fechar os olhos e pular para outra dimensão onde tudo é possível?

Acordei com uma terrível dor de cabeça. Mas eu não bebi ontem. Faz tempo que não bebo, faz tempo que o alcool não corta minha garganta. Eu sinto falta. Mas não somente disso, são tantas coisas que faltam.

Procuro não me importar com os dias parecidos, com as coisas tão iguais. Vejo isso como uma fase que preciso passar. Caminho por trilhas vazias, mas o silêncio não vêm, porque já posso sentir a presença do desconhecido (ele está chegando) e não o temo. Será melhor que isso.

Fechei os olhos novamente. Vou dormir de novo e acordar sem dor. Não adiantou. O sol já batia à janela, resolvi levantar. Quem sabe a dor fique com o travesseiro.

Mas não. No banho, quando já tinha passado aquela sensação ruim ao acordar, pensei o quão boa é a vida. Nos tantos motivos que eu teria para reclamar. Sem dramas. Tenho milhares motivos para agradecer. Está tudo bem.

A dor de cabeça passou depois do Dorflex. Para que sofrer quando se tem a solução?

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meu blog é fabuloso

Publicado em Diversos por Francine Ramos em abril 9, 2009

Adoro aquela frase: GENTILEZA GERA GENTILEZA. É sempre assim: estou em qualquer lugar, estou fazendo coisas simples ou sofisticadas e nesse meio sempre há alguém capaz de uma gentileza, de um sorriso, de uma nova piada. São essas pequenas coisas, esses singelos detalhes que torna a vida interessante. É necessário que não quebremos essa corrente.

Ganhei do Guilherme um selinho chamado de ‘MEU BLOG É FABULOSO’. Gosto dessas gentilezas! Muito obrigada, Guilherme! (PS.: Ainda não esqueci que estou lhe devendo aquela versão da Blue Woman…rs)

Vou indicar minha amiga Erika e seu blog Chá das Cinco para ganhar o selo MEU BLOG É FABULOSO. Somente ela indicarei, pois ela merece!

Essa vida soteropolitano é boa, mas eu sinto muita falta do inverno paulista. Daquelas manhãs congelantes, saindo fumaça da boca e usando o cachecol verde e preto que ganhei da minha mãe. Delícia!

Sucessivas confusões

Publicado em Diversos por Francine Ramos em abril 1, 2009

Foi entre o segundo de piscar os olhos e olhar mais uma vez. Havia uma ponte com folhas de laranjeiras por todos os lados. O cheiro era suave e o vento gelado doía ao tocar a pele, constantemente.

Se existe o que chamamos de tempo, se realmente o passado fica escondido em algum canto. Se realmente é possível estar lá atrás, onde quero estar? Não sei se isso é você. Talvez seja eu querendo você, talvez seja você sem saber. Nós presos nos nós que não desenrolamos.

Ontem enquanto a dose de conhaque era completada escutei alguém dizendo sobre aquela canção, pensei não mais ouví-la, pensei não ser mais possível conhecê-la. Mas me dê apenas uma nota, completarei o resto, revirarei no reverso, no verso de você.

Então, no piscar dos olhos, naqueles segundos eterno que posso estar onde quero, mais uma vez vejo a ponte gelada com flores de laranjeiras, o vento frio toca meu rosto, abro os olhos, e novamente a dose de conhaque a ser completada. Isso cansa.

Mas como não faço tipo de desentendida, como não faço tipo que me engano vou vivendo bem. Se estou a beber você em copos de conhaque é porque julgo necessário para estar bem no dia que essa longa garrafa acabar. Uma forma de mantê-lo carne, menos alma.

Eu sei, é uma grande bobagem destilar-te em meu espaço físico, em garrafas e beijos distraídos, pois lá naquele segundo de olhos fechados, onde vejo a ponte com folhas de laranjeiras e o vento frio, lá do outro lado está você.

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Luzes

Publicado em Outros por Francine Ramos em março 29, 2009

Enquanto um avião sobrevoa o horizonte, gradativamente as luzes vão se ascendendo, num ciclo minucioso da chegada da noite e a luz artificial. Os prédios tortos, coloridos, alguns velhos, outros novos completam a harmonia da cidade. A lua vai se aproximando e alguém, dentro dessas inúmeras casas aperta o botão da luz. Haja luz!

Da minha janela percebo a luz ascender ou a escuridão acabar? Mais uma vez olho pela janela, mais uma vez o número de luzes acesas aumentam. A luz da minha casa já ascendi. Já fiz minha parte para iniciar o espetáculo da noite.

Gosto disso, gosto de rostos mesclados pelas sombras, das luzes brancas e claras, dos pontos escuros que, de repente, clareiam.A vida é assim.

E tudo é uma coisa só. E se não fossem as classificações, os nomes escolhidos, as separações feitas, as conclusões precipitadas, o apego inútil, o medo do desconhecido, os muros, as partidas, os jogos falsos, as máscaras, seríamos mais felizes. Ascenderíamos mais as luzes.

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