Ontem o mundo mudou

 

Ontem de manhã, ainda eu não tinha tomado o primeiro café do dia e já o Reino Unido tinha decidido sair da União Europeia. David Cameron, o Primeiro-Ministro inglês já tinha apresentado a sua demissão. A libra desabava e em queda livre atingia mínimos de trinta e um anos. E a bolsa portuguesa, negociava em mínimos de vinte anos.

 

Creio que ninguém esperava o desfecho do referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia, em que a saída venceu a permanência com 52% dos votos contra 48%, tendo o referendo tido uma participação extraordinária de 71,8% dos eleitores.

 

Qualquer pessoa que já tenha tomado um café tem dificuldade em apreender uma realidade como esta que de repente se lhe impõe em todos os telejornais, em todas as rádios, em todos os jornais, em todas as redes-sociais. Mas para quem ainda não tomou café, olhar para estes acontecimentos ou para um quadro caótico de um pintor qualquer que esteja em voga de onde é suposto extrair-se de forma inata e pura o sentido da vida e os segredos dos deuses é a mesma coisa. A pessoa consegue lá alcançar alguma coisa… Fica especada e atónita a beber um café que por mais açúcar que leve sabe sempre a amargo. E quando começa a sentir algum sinal vital digno de nota, procura entrar em modo de contenção de estragos seguindo a cartilha habitual para estas situações: evitar o pânico e ignorar a frustração que se sente perante fenómenos que são susceptíveis de ter repercussões graves e imprevisíveis e que eram relativamente inesperados.

 

Inesperado já era o facto de nos dias anteriores ao referendo as sondagens apontarem para uma muito tímida vitória da permanência. Era suposto que as virtudes do projecto europeu suplantassem largamente as suas falhas e que isso fosse óbvio para todos os europeus. Era suposto que a permanência ganhasse sem grande dificuldade. Afinal de contas, os eurocépticos, apesar de serem cada vez mais, estavam escondidos em pequenos partidos nacionalistas e (ditos) radicais com pouca expressão, apesar de se reconhecer que a generalidade dos cidadãos europeus está desiludida com esta Europa. Ninguém, penso que ninguém, ousaria pensar que o Reino Unido poderia mesmo optar por sair da União Europeia.

 

Neste momento parece-me impossível prever as consequências deste acontecimento. Certo é que o Reino Unido ficou mais isolado e mais dividido. A União Europeia ficou muito mais fraca e ainda menos unida. Ficou patente que afinal os eurocépticos já não são só umas franjas dos eleitorados e que é possível que a generalidade dos europeus já não esteja apenas descontente com os trilhos que a União Europeia vem trilhando e que estejam verdadeiramente desiludidos e descrentes relativamente ao projecto europeu e se assim for, este pode bem ser o princípio do fim, e isso seria lamentável.

De qualquer modo, se houverem novos tratados europeus como é desejável que hajam, dever-se-á ter o bom senso de neles se inserir uma norma que determine que antes do último europeu ter bebido o seu primeiro café não se pode virar a europa do avesso.